- O que acabamos de falar sobre a humildade aplica-se igualmente à caridade e às demais virtudes, que, aliás, estão todas incluídas, de certa maneira, na humildade. O fato de o excesso de um bem ser um mal diz respeito não às virtudes em si, mas ao nosso esforço em atingi-las, pois esse esforço pode ser mal-inspirado; não pode haver excesso de virtude intrínseca, assim como não pode haver excesso de objetividade e, portanto, de verdade.
- ... a imagem da queda de Lúcifer, em que o ponto mais elevado se torna o ponto mais baixo, imagem que explica a relação misteriosa e paradoxal entre o Ser poderoso, mas imutável, e o poder manifestante que se afasta do Ser até finalmente se levantar contra ele. O poder cosmogônico positivo e inocente chega a este ponto de queda que é a matéria, ao passo que o poder centrífugo, oposto, chega ao mal. São dois aspectos que não devemos confundir.
- No homem, a mão direita — sempre falando simbolicamente — realiza o bem; a mão esquerda evita ou impede o mal; o pé direito aproxima-se de Deus; o pé esquerdo afasta-se do mundo.
- ...para uma perspectiva voluntarista e penitencial, que vê o mal sobretudo na paixão da carne, é grande a tentação de ver a queda no ato sexual; na verdade, é impossível a causa da queda estar numa lei positiva da natureza; ela está unicamente no fato de afastar os bens naturais de sua Fonte divina, de vivê-los fora de Deus e de atribuir a si a sua glória e o seu usufruto. O pecado de Adão e Eva foi, no fundo, menos uma ação exterior determinada do que o fato de se colocarem fora do Centro divino: de isolarem — no ato do conhecimento ou da vontade — tanto o sujeito como o objeto, portanto, de praticamente eliminá-los, embora ilusoriamente, de Deus, que, afinal de contas, é o único Sujeito e o único Objeto. Feito isso, o primeiro casal humano comete necessariamente um ato do princípio de desobediência.
- As interpretações teológicas da árvore proibida nem sempre são concludentes: assim, reconhecer que o primeiro homem tinha necessariamente discernimento moral, em seguida pretender que o pecado original foi a usurpação da faculdade — reservada a Deus — de decidir o que é o bem e o mal é, no mínimo, contraditório. Pois, se Adão tinha discernimento moral, tinira por essa mesma razão a faculdade de aplicá-lo e a frase "decidir por si mesmo ó que é o bem e o mal" não tem sentido algum, a menos que signifique o desejo de ir contra o discernimento; mas, neste caso, há a violação de uma faculdade humana e não a usurpação de um privilégio divino. Além disso, dizer que, decidindo o que é o bem e o mal, o homem se põe no lugar de Deus é insinuar que o bem e o mal resultam de uma decisão divina, isto é, de um veredicto cujas causas não podemos ignorar; aí está uma opinião que nos leva a certos exageros da teologia asharita. Evidentemente, a avaliação moral, seja extrínseca ou intrínseca, circunstancial ou essencial, nada tem de arbitrária: é mal aquilo que por sua natureza ou no plano da sua manifestação se opõe a Deus, ou aquilo que de fato é prejudicial ao homem, estando o interesse superior sempre à frente do interesse inferior. Embora seja evidente, lembremos a esse respeito que um bem objetivo pode ser subjetivamente um mal para determinado indivíduo ou para determinado gênero de homens, e inversamente; por razões de oportunidade, a moral codificada e simplificadora admitirá mais facilmente esse segundo ponto de vista do que o primeiro, no sentido de que sempre denominará um "mal" todo bem moral ou socialmente inoportuno.
- ...a árvore da distinção do Bem e do Mal manifesta a Mâyâ "impura", a que desce, dispersa e, ao mesmo tempo, condensa e entorpece; é a Possibilidade cósmica, mas em seu aspecto inferior e centrífugo. Além disso, não é sem razão que essa árvore é a morada da serpente instigadora da queda: com efeito, a serpente representa, segundo o seu simbolismo negativo, o modo luciferiano e tenebroso da tendência demiúrgica; portanto, devia encontrar-se no Paraíso primordial como virtualidade do mal, já que o Éden se situa, com efeito, no caminho da expansão cosmogônica.
- Quando Deus parece fazer o que, da parte do homem, seria um mal, Ele o compensa com um bem maior, um pouco como a cura compensa o amargor do remédio; isso resulta, necessariamente, do fato de Deus ser o Bem absoluto e, em consequência, de Ele comportar em sua natureza uma qualidade compensadora que exclui o mal como tal. O homem, não sendo o Ser necessário, é por definição contingente e, sendo contingente, não pode beneficiar-se com a natureza compensatória que resulta da Absolutez ou da Infinidade. O mal que o homem faz não é uma virtualidade do bem; é um mal puro e simples, porque o agente humano é fragmento e não-totalidade, acidente e não-substância.
- Exotericamente falando, Deus "permite" o mal tendo em vista um bem maior, o que é incontestável mas não-suficiente, pois um Deus "onipotente" poderia a priori tornar inútil essa necessidade de permitir o mal, justamente abolindo o mal. A solução esotérica é de natureza bem diferente. Isto significa que, do ponto de vista da Subjetividade divina, a Vontade que quer o mal não é a mesma que quer o bem; do ponto de vista do objeto cósmico, Deus não quer o mal como mal. Ele o quer como elemento constitutivo de um bem; portanto, como bem. Por outro lado, o mal nunca é assim por sua substância existencial, por definição desejada por Deus; ele só é pelo acidente cósmico da privação do bem, desejado por Deus como o elemento indireto de um bem maior. Se nos censuram por introduzir em Deus uma dualidade, admitimos sem hesitação — mas não como censura —, como admitimos todas as diferenciações na Divindade, quer se trate de graus hipostáticos de qualidades ou energias. A própria existência do politeísmo nos dá razão, excetuando-se o aspecto eventual de desvio e de paganização.
- Assim como a virtualidade do mal se encontrava na alma do primeiro homem, assim também a corruptibilidade material existia virtualmente no seu corpo paradisíaco e incorruptível. Esse corpo não podia se corromper em seu estado normal, mas a atuação do mal na alma tirou os quatro elementos sensíveis de sua homogeneidade etérea, que era a do corpo edênico; é o que ensina a Cabala. Tendo a alma abandonado em seu movimento deífugo a contemplação do Uno, consequentemente, os quatro elementos corporais deixaram por sua vez sua unidade primordial, a quinta essentia ou o Éter. Dissociaram-se e opuseram-se um ao outro, para acabar reunindo-se num plano inferior e compor o corpo corruptível do homem que perdeu a graça divina, conservando desde então seu corpo incorruptível como uma virtualidade pura. Portanto, o corpo edênico não desapareceu por completo, mas é como um "núcleo de imortalidade" totalmente oculto sob sua exterioridade corruptível. Nosso corpo atual é corruptível por ser composto pelos quatro elementos e porque toda coisa composta, por definição, está destinada à decomposição.
- ...a tendência para o mal continua sempre uma volição, portanto, uma utilização de nossa liberdade, assim como uma felicidade ilusória continua sempre uma experiência de bem-estar, portanto, uma participação ontológica e longínqua, eventualmente perversa, da única Felicidade que possa existir. Ou ainda: querer ou amar o mal é um mal; mas conhecer o mal não é um mal, é um bem mesmo porque permite localizar o mal e vencê-lo.
- ...origem do mal não é a curiosidade ou a ambição, como no caso de Eva, mas um amor desregrado; portanto, o excesso de um bem.
- A injustiça é uma provação, mas a provação não é uma injustiça. As injustiças vêm dos homens, ao passo que as provações vêm de Deus. Aquilo que, da parte dos homens, é injustiça e, consequentemente, mal, é provação e destino da parte de Deus. Temos o direito ou, eventualmente, o dever de combater esse mal, mas devemos nos resignar à provação e aceitar o destino. Isso significa que é preciso combinar as duas atitudes, considerando que toda injustiça que sofremos da parte dos homens é, ao mesmo tempo, uma provação que nos chega da parte de Deus.
- Na dimensão horizontal ou terrestre, pode-se escapar do mal combatendo-o e vencendo-o. Ao contrário, na dimensão vertical ou espiritual, pode-se escapar, senão à provação em si, pelo menos ao seu peso, e isto aceitando o mal na qualidade de vontade divina e transcendendo-o interiormente na qualidade do jogo cósmico, como se pode transcender espiritualmente qualquer outra manifestação de Mâyâ.
- ...devemos evitar dois erros: acreditar que um mal é no seu próprio plano um bem ou porque Deus no-lo envia, ou porque Deus o permite, ou porque tudo vem de Deus; e acreditar que uma provação, como tal, é um mal porque a sua forma é um mal e porque nós somos vítimas.
- ...o mal não é por definição aquilo que faz sofrer, mas o que frustra um máximo de almas quanto aos seus fins últimos, mesmo com um máximo de conforto ou de satisfação, ou de "justiça", se quisermos.
- Nenhum conhecimento fenomenal é um mal em si; mas a grande questão é saber primeiro se esse conhecimento é conciliável com a finalidade da inteligência humana; segundo, se é útil e, terceiro, se o homem o admite espiritualmente.